Em meados dos anos sessenta, Fritz Perls, criador da Gestalt Terapia, já instalado em Esalen (EUA) e então um dos nomes mais influentes da psicoterapia americana, viajou ao Japão e permaneceu por algum tempo num mosteiro Zen. Não era um gesto dissociado de sua trajetória: Perls havia lido Shunryu Suzuki, convivido em Esalen com Alan Watts, e vinha há anos tentando formular clinicamente algo que percebia faltar tanto na psicanálise quanto nas psicologias comportamentais de sua época.

No mosteiro, ele sentou em meditação. Um ato tão simples mas poderoso, realizado no berço do Zen, transformou a experiência e a visão de Perls sobre a terapia.

Persl sentou em zazen e, ao retornar, passou a incorporar em sua obra dois termos tomados diretamente do vocabulário zen: satori — o despertar súbito — e mini-satori, sua formulação para esses clareamentos pontuais da consciência que podem ocorrer no curso de uma sessão de terapia, quando o paciente, atravessando um impasse, subitamente . A noção de awareness, hoje pedra angular da Gestalt e termo corrente em todo o vocabulário terapêutico contemporâneo, não pode ser compreendida fora dessa filiação. Ela chega à clínica ocidental pela porta do zendô.

O destino posterior da palavra é outra história. Awareness tornou-se moeda comum — em manuais clínicos, em literatura de divulgação, em aplicativos de mindfulness de oito semanas, em formações rápidas de coaching. Em larga medida, foi traduzida como uma operação mental discreta: notar o que se sente, reconhecer o que se pensa, nomear o que se passa. Uma versão funcional e administrável, compatível com o tempo curto do consultório e com a cultura da performance. O que se perde nessa tradução é precisamente o que Perls havia ido buscar em Kyoto. Awareness, na raiz da Psicologia Budista da qual foi extraída, não é uma operação mental nem um ato de atenção deliberada. É um modo de presença no qual o observador e o observado deixam de figurar como instâncias separadas — um estado, e não uma técnica.

Essa ordem de fenômeno psíquico, com todas as suas gradações e consequências clínicas, encontra descrição sistemática, método e linhagem apenas na psicologia oriental: no Abhidharma budista, nos tratados do Yoga, nos mapas contemplativos do Vedanta e do Vajrayana. A psicologia ocidental, quando a toca, o faz de fora — com o vocabulário emprestado e, frequentemente, sem a experiência imersiva longa e sistemática que sustenta a realização e o vocabulário.

Convém ser um pouco mais preciso sobre o que Perls efetivamente importou. Dois conceitos centrais de sua obra tardia — o impasse e o vazio fértil — são impensáveis fora da referência Zen.

O impasse, em sua definição, é aquele ponto em que o suporte ambiental já não chega e o suporte interno ainda não se constituiu; a pessoa se vê desamparada, confusa, à beira de uma dissolução que ela teme como morte. O que Perls propõe, e que é absolutamente contraintuitivo para a psicologia que lhe era contemporânea, é que não se saia do impasse — atravessa-se. E atravessá-lo exige que o terapeuta saiba, por experiência própria, o que é permanecer em um estado de confusão sem buscar resolução prematura.

O vazio fértil é o nome que ele dá ao território que se abre quando esse atravessamento ocorre. É um correlato clínico quase literal do que as tradições contemplativas chamam, com vocabulários distintos, de śūnyatā, de vazio luminoso, de fundo vazio da consciência. Dentro de um contexto mais limitado do tratamento terapêutico, mas com a mesma natureza. Perls não tinha formação em filosofia budista suficiente para desenvolver essas correspondências, mas reconhecia a proximidade e a nomeava. O que estava em jogo, para ele, era um tipo de cura que passa por uma dissolução controlada de uma identidade funcional neurótica — algo que a prática zen também busca liberar há séculos, usando seus próprios termos.

A dificuldade, do ponto de vista da clínica contemporânea, não está no que Perls formulou, mas no que foi feito com sua formulação. A Gestalt, como ocorreu com a Psicanálise antes dela e com o Mindfulness depois, foi gradualmente decantada em protocolos e técnicas transmissíveis em cursos de formação. O terapeuta que conclui essa formação sai com um vocabulário e com um repertório de intervenções. Pode conduzir uma sessão com competência formal. O que ele quase nunca tem, no entanto, é a base experiencial da qual o vocabulário foi extraído — a familiaridade prolongada com os estados internos que awareness, impasse e vazio fértil nomeiam. Sem essa base, a intervenção torna-se procedimento: pede-se ao paciente que “esteja presente”, que “sinta no corpo”, que “permaneça com o que emerge”, mas o próprio terapeuta, nos bastidores de sua prática interior, nunca habitou esses territórios por tempo suficiente para reconhecê-los quando aparecem. É isso que Perls sublinhava, é isso que Claudio Naranjo treinava nos seus terapeutas, antes e mais fortemente do que qualquer outra coisa. Há uma diferença tangível entre ser conduzido por alguém que decorou o mapa e ser acompanhado por alguém que caminhou o terreno.

Isso não é uma objeção moralista à formação clínica ocidental, que é séria, valiosa e indispensável. É apenas o reconhecimento de que certos fenômenos da mente não se transmitem por descrição. A tradição budista, que desenvolveu ao longo de dois milênios os mapas mais refinados dos estados meditativos, é também a tradição que afirma, sem rodeios, que nada disso se conhece pela leitura. Conhece-se ao sentar, por tempo suficiente, com instrução e profundidade. Uma clínica que incorpore de fato a dimensão contemplativa, e não apenas seu vocabulário, precisa ser conduzida por alguém que tenha sentado.

É dessa experiência e travessia que nasce a Hridaya Terapia. Meu trabalho clínico aqui se faz dentro da tradição da Gestalt Viva de Claudio Naranjo, da psicologia analítica de Jung, das contribuições da neuropsicologia contemporânea — e, como espinha dorsal silenciosa, da prática meditativa continuada nas tradições do Budismo Zen, do Yoga, do Ayurveda e do Budismo Vajrayana que fazem parte da minha história, prática e caminho pessoal. Não há separação entre o método e a sua origem, nem entre a formação acadêmica e a prática interior que a sustenta. Para quem busca uma psicoterapia que reconheça a dimensão contemplativa como parte legítima e estrutural do trabalho, este é o espaço oferecido.

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Por Nando Pereira.