Notas & Recomendações da Terapia✎

Artigos, anotações e sugestões de leitura sobre psicoterapia – por Luiz Fernando Pereira

A meditação é provavelmente a melhor prática a ser feita para quem está buscando conhecer mais de si mesmo e da vida. E como isso está implícito no processo terapêutico, a resposta curta é naturalmente SIM, a meditação ajuda na terapia. Quando corretamente feita, ela jamais é neutra. E há apenas algumas poucas situações em que ela pode atrapalhar – trato disso brevemente neste artigo.

Para a cultura ocidental, meditação e psicoterapia talvez sejam as duas coisas mais importantes a serem adotadas e realizadas com dedicação verdadeira e tempo. Juntas, conseguem libertar uma pessoa de seus fardos e bloqueios mais pesados, conseguem abrir caminhos para a realização verdadeira de outras coisas muito importantes na vida – como trabalho, saúde, presença e relacionamentos felizes – e fornecem recursos suficientes para um indivíduo se conhecer e conseguir caminhar pela vida com lucidez e autonomia. E acho que a essa altura, mais de 120 anos depois do surgimento de Freud e todo o movimento que resultou no que conhecemos hoje como Psicologia Ocidental, está claro que sem uma ampliação da consciência e sem autoconhecimento o ser humano não vai muito longe, não passa de um animal questionavelmente evoluído – e, como disse certa vez Jung, é “o maior perigo para si mesmo”.

Há muitas razões para entendermos essa combinação (meditação + terapia) desta forma, desde algo bem simples e imediato, que é a observação da própria mente no dia-a-dia, até o grande potencial espiritual que há na união dos métodos de autoconhecimento ocidentais e orientais, e a adoção de fenômenos fundamentais como satori e iluminação.

Dentro desses muito aspectos (há mais artigos aqui sobre isso), gostaria de falar aqui de um mais práticos e basais: a observação de si e a familiaridade com a própria mente. Quando estamos em terapia, estamos buscando conhecer como viemos a entrar em crise ou como viemos a experimentar sintomas ruins e a sofrer ou como não conseguimos viver bem e diversos outros “comos”, e todos esses processos têm ligação direta com nossa mente e com como a conhecemos ou não de nós. Quanto mais ignorantes somos sobre os processos de nossa mente, menos chances de compreendermos nossa realidade temos. E consequentemente, menos soluções, respostas e amadurecimentos somos capaz de encontrar na vida.

Peguemos o aspecto simples de uma irritação ou acusação crônica cotidiana que uma pessoa faz contra seu cônjuge. Conforme a terapia progride, ela começa a perceber que está sob efeito de uma projeção, que é um mecanismo de defesa que faz com que suas frustrações pessoais sejam vistas em outras pessoas. Assim, com a terapia, ela tem a oportunidade de descobrir, olhar e trabalhar essas frustrações, e assim desiste de acusar e se irritar com o cônjuge e com os outros. Uma pessoa que não passa por esse processo, continua ad infinitum a repetir a atitude da projeção e da acusação, causando danos para si e para os outros, para a sociedade. É famoso o aforismo atribuido a Carl Jung em que ele diz que “o melhor trabalho político, social e espiritual que podemos fazer é parar de projetar nossas sombras nos outros“.

A terapia vai fazer um trabalho, e a meditação fará outro, mais íntimo, profundo e ainda mais libertador do que a terapia. Mas, sem a ajuda da terapia, dentro da cultura ocidental, dificilmente conseguirá ir fundo.

E quando uma pessoa em terapia começa a meditar, ou resgata sua prática, a saúde da mente se beneficia muito. Capacidades como lucidez, inteligência, honestidade, calma e memória são muito privilegiadas, desenvolvidas e ampliadas pela prática da meditação. Assim como o contrário também é verdadeiro: quanto menos cuidados de saúde temos conosco e com nossas mentes durante o processo de terapia, mais isso tudo é prejudicado, mais a mente tem dificuldade de tratar de certos temas, mais impaciente e desequilibrada ela fica, mais o processo todo se estende e demora, mais frustração pode causar.

Como uma forma mais individual e solitária de cuidar da própria mente e de se descobrir, a meditação investe no mesmo movimento de interiorização, auto-observação, auto-descoberta e insight, mas como um outro método, mais particular e autônomo.

Por que não fazer apenas um deles então? A resposta a essa pergunta necessita de muito contexto, desenvolvimento de detalhes e compreensão do contexto ocidental, mas basicamente a cultura ocidental tem uma realidade que perturba a mente humana de maneiras específicas e diferentes da cultura oriental, onde a prática da meditação foi originalmente criada. Nós temos males profundos associados ao individualismo, ao imediatismo, ao consumismo, à violência e à ausência de cooperação e profundidade. Isso ainda não foi amplamente estudado nem sistematizado, mas é uma percepção clara que nutro há bastante tempo sobre as diferentes realidades que temos.

Por causa dessas diferenças, aqui, nos países ocidentais, a já popular prática da meditação não recebe a regularidade, a força e a profundidade que necessita, como veio recebendo historicamente na cultura oriental. Talvez um dia receba, talvez estejamos em processo de amadurecimento, mas, nos tempos atuais, para que consigamos chegar a um campo mais crítico da mente, onde estão as neuroses, psicoses, hábitos, projeções, pontos-cegos, traumas e inúmeras outras situações em que a mente se encontra comprometida, faz-se necessária a terapia. Basicamente a terapia age nos processos de liberação da mente e também se beneficia da observação de uma outra pessoa, preparada e presente, que colabora na cura.

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As únicas situações em que a meditação atrapalha a terapia são nos casos de psicoses, surtos e outros desequilíbrios mais graves, onde a meditação pode, sem querer, acabar desequilibrando mais a mente. Quando determinadas pessoas em determinadas circunstâncias precisam de acolhimento, apaziguamento de uma outra pessoa, quando precisam de contenção, aterramento e um retorno ao básico, o espaço e abertura da meditação podem ser contraindicados. Claro que tudo é caso-a-caso, mas, de maneira geral, a prática individual fora dos grupos espirituais e sem mestre são desaconselhadas. Nestes casos, a terapia deve permanecer sendo realizada “sozinha” por um tempo até certas condições serem reestabelecidas e/ou desenvolvidas.

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Obs.: Este artiga não trata da meditação DENTRO DA terapia, no sentido de ser parte das sessões de terapia. Este é um outro tema que já foi tratado em outros artigos e possivelmente será tratado em artigos futuros.