Notas & Recomendações da Terapia✎

Artigos, anotações e sugestões de leitura sobre psicoterapia – por Luiz Fernando Pereira

As expressões que estão no título, e também abaixo, são um ensaio livre para compreendermos melhor o processo terapêutico quando ele contém a meditação dentro dele. Não qualquer presença, mas uma presença genuína, incorporada por um profissional que vivencie a prática em sua própria vida e que tenha experiência real com o caminho de autoconhecimento, não apenas como “recurso adotado”. O nível e a veracidade da presença, do espaço, da profundidade de cura e do insight que a meditação traz é incomparável a sistemas ou métodos psicológicos convencionais. E, como veremos, quando uma terapia tem em sua coração a meditação, está mais perto do que Freud, Jung, Perls e outros grandes da Psicologia buscaram durante todo o seu trabalho do que a maioria imagina.

A meditação não é apenas uma “técnica” de autoconhecimento de origem oriental, é um fenômeno íntimo revolucionário e um veículo restaurador e orientador de um ser humano em sua máxima saúde e capacidade de viver. Quando integrado com consciência e habilidade no ambiente terapêutico, pode se tornar a chave que abre as portas para o que o paciente busca.

Vejamos esses termos:

O prático“: aquilo que um paciente quer resolver e imagina que precisa de solução, aquilo que o paciente traz para transformar e encerrar. O mais imediato e “prático”, associado ao que preciso ser resolvido “logo” para o bom funcionamento do indivíduo. Pode ser um sintoma ou um conjunto de sintomas (angústia, tristeza, procrastinação, ansiedade, depressão, desânimo, medo, pânico, raiva, paralisia, desespero, falta de sentido, etc), uma crise, uma perda, uma impressão, uma percepção, uma meta.

O presente“: aquilo que é e que está na realidade, mas que o paciente não vê, não percebe e não sente, em significativa parte, e assim cria sintomas e não consegue encontrar recursos para lidar. Daí surgem as neuroses, confusões, angústias e outros sintomas.

O condicionado útil“: é o pano de fundo que cria o objetivo “prático” do paciente. Muito do que inicia uma busca por terapia nasce de inconsciência individual, de “pontos cegos”, do que não está sendo percebido ou considerado suficientemente pelo indivíduo – dêaí o objetivo terapêutico mais geral de “trazer da inconsciência para a consciência”. Dentro de um paradigma com visão perturbada ou reduzida, o paciente minimamente saudável tenta soluções e saídas antes de chegar à terapia, mas elas ficam “presas” circularmente a esses problemas de visão e inconsciencia. Portanto, o que o paciente geralmente traz ao início do seu processo de cura é um pedido “condicionado útil” (= “prático”) – ou seja, a resolução daquilo que está pendente para que ele prossiga sendo “útil” dentro de uma realidade condicionada. Um exemplo clássico: o esgotamente mental ou o burnout é a condição que sofre de inconsciência, visão reduzida, psicossomatização crescente e que “prejudica” o viver dentro de um paradigma condicionado útil. O paciente sofre nele mas, por estar condicionado nele, considera que precisa continuar vivendo nele. Se o processo terapêutico lhe dá essa solução, está apenas servindo como analgésico comum. Assim, o “condicionado útil” é apenas uma parte do processo, e que gera o objetivo “prático” do paciente.

O real vivo e orientativo“: O que não é condicionado é vivo, real. É o que não está preso às histórias, narrativas, conceitos e, em último grau, aos scripts sociais e culturais. Está vivo, presente e livre. Todo o Ser contém isso mais do que qualquer outra coisa, e é a isso que se refere Carl Jung quando diz “Só o que somos tem o poder de nos curar”. É de fundamental importância que toda pessoa, em vida, consiga tocar essa dimensão. Pois é ela que cura, que equilibra, que vive e que orienta. A (auto) orientação é o que o paciente realmente busca em terapia, e não a reles cura externa do sintoma pela “autoridade” do terapeuta. O paciente pensa que quer apenas retornar a um condicionado útil (de preferência aprimorado, já que está em terapia), mas ele quer sua vida, sua capacidade de decidir, de realizar e de viver para além das prisões neuróticas e condicionamentos sofríveis. Essa capacidade auto-orientativa está no fundo do seu Ser, inacessível quando tudo que experimenta é sua rotina condicionada.

Essa é uma das dimensões importantes que a meditação traz para o processo de cura. Ela está contida, de certa forma, nos objetivos de “awareness” como Fritz Perls trouxe à Gestalt Terapia, e na liberdade terapêutica dos conceitos e diagnósticos que Carl Jung propunha para psicoterapeutas – mas é muito mais ampla e profunda que isso, e de certa forma potencializa esses mesmos objetivos.

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A meditação não é uma moda ou um “recurso” terapêutico para iniciantes ou influencers faladores nessa época de degeneração moral e de profissionais sem vivência e experiência pessoal. Certifique-se que o terapeuta com quem você vai trabalhar seja alguém preparado para tal e que vivencie a prática meditativa em sua própria vida.

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Como é a terapia aqui.