O que Fritz Perls diz abaixo é supreendentemente válido e atual, escrito a partir de palestras em 1968, há mais de meio século, em Esalen (EUA), endereçando o surgimento da Gestalt Terapia num ambiente pós-guerra e bomba atômica da revolução livre dos psicodélicos e da liberdade sexual dos Anos 70. Surgia, ali, uma busca hedonista que até hoje não parou, e pior, se agravou a níveis que Perls jamais teria imaginado. Tornou-se, na verdade, um padrão cultural que se alastrou pelo mundo.
A Psiquiatria e o Behaviorismo ganharam mais espaço na sede – irrefletida e desesperada – por alegria imediata e pelo medo dos sintomas, do crescimento e da realidade. Em nenhum momento isso foi superado, deixou de ser importante ou foi reduzido, pelo contrário: “tornar-se real“, como Perls define nessa introdução, “crescer“, “desenvolver seu centro“, aceitar-se e viver, continua sendo a ´única solução verdadeira. Mas “leva tempo”.
Alguns dos entendimentos e proposições de Perls são questionáveis, mas não esta aqui. Esta aqui foi uma preocupação legítima que continua viva e agravada. E a Gestalt continua viva, vivíssima, como um caminho real, profundo e não mercantilizado de terapia nos tempos modernos.
Não é fácil resistir à tentação dos paliativos, estimulantes e mascaradores de sintomas da cultura imediatista atual, mas uma vez que você tenha experimentado uma gota de crescimento real, de maturidade psicológica e de vida verdadeiramente vivida, aceitando-se mais e tornando-se livre das ansiedades pessoais e sociais, você nunca mais retornará ao circo de felicidade artificial que vige neste século.
Eis o trecho, da introdução do importante livro “Gestalt Terapia Explicada“:
“Desejo falar sobre o desenvolvimento atual da psicologia humanista. Levamos bastante tempo para desmascarar todo o logro freudiano, e agora estamos entrando numa fase nova e perigosa. Estamos entrando na fase das terapias “estimulantes”*: “ligando-nos” em cura instantânea, em consciência sensorial instantânea.
Estamos entrando na fase dos homens charlatães e de pouca confiança, que pensam que se vocês obtiverem alguma quebra de resistência, estarão curados, sem considerar qualquer necessidade de crescimento, sem considerar o potencial real, sem considerar o gênio inato em todos vocês. Se isto estiver se tornando moda, será tão perigoso para a psicologia quanto deitar num divā durante um ano, uma década, um século. Pelo menos, os danos que sofremos com a psicanálise têm pouca influência sobre o paciente, a não ser por deixarem-no cada vez mais morto. Isto não é tão prejudicial quanto a coisa super-super-rápida. Os psicanalistas pelo menos tinham boa vontade.
Devo dizer que estou muito preocupado com o que está acontecendo atualmente. Uma das objeções que tenho contra qualquer pessoa que se diga um gestalt-terapeuta é quanto ao uso da técnica. Uma técnica é um truque. Um truque deve ser usado apenas em casos extremos. Existem muitas pessoas colecionando truques e mais truques, abusando deles. Estas técnicas, estes instrumentos são bastante úteis em seminários de consciência sensorial ou alegria, para dar a idéia de que ainda se está vivo, e que o mito de que o americano é um cadáver não é verdade, que ele pode estar vivo. Mas, o triste fato é que esta energetização freqüentemente se torna uma perigosa atividade substitutiva, uma outra falsa terapia que impede o crescimento.
Agora, o problema não é tanto em relação às “terapias estimulantes”, mas em relação a toda cultura americana. Nós demos um giro de cento e oitenta graus, do puritanismo e moralismo até o hedonismo.* De repente, tudo tem que ser diversão e prazer, e qualquer envolvimento sincero, qualquer estar aqui real, é desencorajado.
Mil flores de plástico
Não fazem um deserto florescer
Mil rostos vazios
Não podem uma sala vazia preencher
Na Gestalt-terapia trabalhamos por algo mais. Estamos aqui para promover o processo de crescimento
e desenvolver o potencial humano. Nós não falamos de alegria instantânea, de consciência sensorial instantânea, de cura instantânea. O processo de crescimento é um processo demorado. Não podemos apenas estalar os dedos e dizer: “Venha, vamos ser felizes! Vamos lá!”. Se você quiser, pode conseguir isso com LSD, acelerando tudo, mas isso não tem nada a ver com o trabalho sincero da abordagem psiquiátrica que eu chamo
Gestalt-terapia. Na terapia, não temos apenas que superar o desempenho de papéis. Temos também que preencher os buracos da personalidade, para torná-la novamente inteira e completa. E outra vez, da mesma forma que antes, isto não pode ser feito por meio de “terapias estimulantes”. Na Gestalt-terapia temos uma forma melhor, mas que não é nenhum atalho mágico. Você não precisa se deitar num diva ou ficar “zendo” durante vinte ou trinta anos, mas tem que se empenhar na terapia; e crescer leva tempo.
(…) Como vocês sabem, existe uma rebelião nos Estados Unidos. Nós descobrimos que produzir coisas, viver para coisas, e trocar coisas não é o sentido fundamental da vida. Descobrimos que o sentido da vida é que ela deve ser vivida e não comercializada, conceituada e restrita a um modelo de sistemas. Achamos que a manipulação e o controle não constituem a alegria fundamental de viver.
Mas devemos também compreender que até agora temos apenas uma rebelião. Ainda não temos uma revolução. Ainda falta muita coisa. Existe uma disputa entre o fascismo e o humanismo. Neste momento, parece-me que a disputa está quase perdida para os fascistas. E que os selvagens hedonistas, os estimulantes não-realistas e apressados nada têm a ver com o humanismo. É um protesto, uma rebeldia que é boa como tal, mas que não representa um objetivo. Eu tenho tido muito contato com jovens da nova geração que estão desesperados. Eles vêem o militarismo e a bomba atômica por trás de tudo. Eles querem obter alguma coisa da vida. Querem tornar-se reais e existir. Se existe alguma chance de interromper a ascensão e queda dos Estados Unidos, cabe à nossa juventude aproveitá-la, e cabe a você apoiar essa juventude. Para conseguir isto existe apenas um caminho: tornar-se real, aprender a assumir uma posição, desenvolver seu centro, compreender a base do existencialismo: uma rosa é uma rosa é uma rosa. Eu sou o que sou, e neste momento não
posso ser diferente do que sou.”
– FREDERICK “FRITZ” SALOMON PERLS (1893-1970), em “Gestalt Terapia Explicada” (1977)
