“Não vejo sentido na minha vida” é um sintoma crescente nos tempos atuais (a Geração Z em 2021 registrou 42% de incidência de sintomas como tristeza e desesperança, o dobro da geração Millenium, de acordo com a CDC Youth Risk Behavior Survey) e é um sinal, na verdade, de saúde do sistema psíquico e da consciência. Há muitas pessoas que não vivem com sentido mas não percebem isso, justamente pelo comprometimento da consciência e do contato consigo mesmas — e do excesso de adaptação ao que é externo a si (falamos disso num artigo anterior). Ao não terem sequer uma consciência rudimentar de sua insatisfação, elas não registram nem externalizam que suas vidas não tem sentido — mesmo, claramente, não tendo. E, assim, não podem de fato mudar a situação nem encontrar verdadeiro sentido.
Não quero discorrer aqui sobre a situação dessas pessoas, as que não registram e não tem consciência de sua situação sem-sentido, pois elas geralmente não entram em terapia e não resolvem esse adoecimento da consciência, gerando problemas piores para si e para a sociedade.
E o que, então, essa percebida falta de sentido nos informaria? Ela declara que a situação de vida de um individuo é profundamente insatisfatória para si, que não corresponde às aspirações e necessidades genuínas daquele ser. Ao sentir a falta de propósito e sentido, ele reconhece isso, pelo menos em um certo nível — ele está vivo consigo mesmo e pode começar a agir nesta situação. A falta de sentido é como se trouxesse à tona que “eu não tenho vontade real disso” ou “eu não tenho vontade real de nada na minha situação“, só que a pessoa não necessariamente está em depressão (ou mesmo que esteja, continua informando isso). Como já afirmou o psiquiatra suíço Carl G. Jung (1975-1961), essa depressão seria “uma mensagem do inconsciente nos informando que nossa atitude diante da vida está muito enviesada ou inautêntica“.
Marie-Lousie von Franz (1915-1998), uma conhecida pesquisadora, autora e discípula importante de Jung, dizia que “a depressão é uma benção, pode ser a única forma que leva uma pessoa a olhar pra dentro de si mesma”. Isso é, de fato, um movimento de saúde imensa: imagine um amigo lhe dizendo que sua atitude diante da vida está muito enviesada e inautêntica, e que ele percebe que você não está feliz assim. Que presente isso seria! É assim que a sensação de falta de sentido age em nós: é um alerta, um sinal importante da consciência.
Jung usava a famosa imagem da “senhora de preto” para falar da depressão, e acho que podemos usar essa mesma imagem para a sensação de falta de sentido. É algo desagradável, que causa mal-estar, que paralisa, que queremos que vá embora. Mas, como diz Jung, “não a expulse, peça pra ela entrar, diga-a para sentar-se e trate-a como uma convidada importante“.
Isso é respeito ao sintoma que aparece em si mesmo, e a possibilidade de tomar consciência dele, e, então, de curá-lo da forma mais consistente e completa que existe. Ao dialogar com ela, sabemos qual é sua natureza, como se sente, o que ela quer e precisa. Esse é o diagnóstico que todos nós nos devemos, por dignidade à nossa própria vida.
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OBS: Esta é uma reflexão profunda e necessária mas não é uma recomendação de tratamento universal para a depressão, principalmente para quem já está medicado e em acompanhamento psiquiátrico. Nestes casos, sempre siga seu tratamento. Se quiser, claro, leve suas reflexões ao psiquiatra, mas não as tome como decisão última irrefletida. Se tiver necessidade de elaborar ou tirar dúvidas sobre o que foi escrito aqui, faça contato.