Esse é um tema delicado, cada dia mais urgente — e essa pergunta é corajosa. Numa época em que familiares e amigos minimizam as consequências do uso de medicamentos como algo “normal” — inclusive os de tarja vermelha e preta —, fazer essa pergunta já é um ato de consciência.
Os efeitos negativos são geralmente subestimados ou negligenciados. Os efeitos positivos, superestimados. Os custos, desconsiderados. A Psiquiatria é uma dádiva da medicina e da ciência, mas ela não é a panacéia para nossos problemas. Precisa ser considerada dentro do seu espectro real não milagroso — assim não se degenera em negócio farmacêutico ou aliado questionável da produtividade e do consumismo.
A resposta a essa pergunta não é simples. A questão central hoje, no fundo, já não é mais o remédio em si, e sim a forma como chegamos a tomá-lo: as motivações, a decisão, o processo.
Para responder bem a essa pergunta, é preciso olhar primeiro para outro desequilíbrio sério — não a que está te levando a considerar a solução medicamentosa (depressão, ansiedade, TDAH, burnout, transtorno bipolar…), mas uma doença anterior, invisível e possivelmente mais grave do que a nomeada. Ela se manifesta em três formas:
É nesse terreno que se formam os dois extremos que conhecemos tão bem. De um lado, a medicalização irrefletida: o sofrimento visto apenas como desequilíbrio químico a ser corrigido, o remédio como solução mais rápida, o desconforto como inimigo a eliminar. Do outro, a resistência ideológica: a medicação como fraqueza, como fuga, como química que embota a experiência.
Nenhuma dessas posições faz bem a quem está sofrendo.
Medicamentos podem ser fundamentais quando o sofrimento tem uma base biológica significativa e praticamente intransponível: quando a depressão é tão intensa que paralisa, quando a ansiedade impede qualquer funcionamento, quando o sono não existe há semanas, quando o burnout chegou a um ponto de colapso real. Nesses casos, o medicamento não é fuga — é ponte. Seja um antidepressivo como o escitalopram, um estimulante como o Venvanse ou a Ritalina para o TDAH, um ansiolítico como o clonazepam — em contextos adequados, eles criam condições mínimas para que o trabalho mais profundo possa acontecer.
Mas o remédio, por si só, não transforma padrões. Não elabora traumas. Não responde às perguntas de sentido. Não ensina novas formas de se relacionar consigo mesmo e com o mundo. Isso é muito sério. Pode silenciar a dor — o que às vezes é necessário — mas dificilmente a resolve.
Às vezes, o sofrimento pede alívio urgente — e a medicação pode oferecer isso. Às vezes, ele pede espaço para ser escutado, compreendido, atravessado — e aí é o trabalho terapêutico que sustenta a jornada. Se a resposta sobre o que fazer precisa ser muito rápida, ela já revela algo sobre o desequilíbrio em que se está vivendo.
Vale lembrar: a decisão sobre medicação é médica — do psiquiatra, não do psicólogo nem do psicoterapeuta. O que o processo terapêutico oferece é outra coisa: o espaço para entender o que está vivendo, como esse sofrimento surgiu, o que você precisa — e o que quer para sua vida.
Remédio e terapia não se excluem. Mas nem sempre os dois são necessários. E a única forma de saber é aprofundar a escuta, não apressar a resposta.
Se você está nessa dúvida, uma conversa pode ajudar a clarear. Às vezes, o primeiro passo é simplesmente ser escutado.
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