Esse é um tema delicado, cada dia mais urgente — e essa pergunta é corajosa. Numa época em que familiares e amigos minimizam as consequências do uso de medicamentos como algo “normal” — inclusive os de tarja vermelha e preta —, fazer essa pergunta já é um ato de consciência.

Os efeitos negativos são geralmente subestimados ou negligenciados. Os efeitos positivos, superestimados. Os custos, desconsiderados. A Psiquiatria é uma dádiva da medicina e da ciência, mas ela não é a panacéia para nossos problemas. Precisa ser considerada dentro do seu espectro real não milagroso — assim não se degenera em negócio farmacêutico ou aliado questionável da produtividade e do consumismo.

A resposta a essa pergunta não é simples. A questão central hoje, no fundo, já não é mais o remédio em si, e sim a forma como chegamos a tomá-lo: as motivações, a decisão, o processo.

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Para responder bem a essa pergunta, é preciso olhar primeiro para outro desequilíbrio sério — não a que está te levando a considerar a solução medicamentosa (depressão, ansiedade, TDAH, burnout, transtorno bipolar…), mas uma doença anterior, invisível e possivelmente mais grave do que a nomeada. Ela se manifesta em três formas:

Imediatismo
A patologia que cria na mente humana a obsessão por tratamentos com o prazo mais curto possível. Vivemos num mundo que oferece aceleradores aos montes — entrega em dez minutos, respostas em segundos, controles para acelerar áudios e comprimir o tempo em tudo. A solução medicamentosa é, nesse contexto, a mais imediatista entre todos os campos de tratamento: ao tratar apenas os sintomas e abafá-los em horas ou dias, ela esconde o problema e leva ao esquecimento das causas. Em muitos casos, esse imediatismo é alimentado pela necessidade de produtividade — ir ao trabalho no dia seguinte, manter-se num emprego insalubre, não perder o ritmo. A conquista de agilidade é uma conquista humana legítima. Mas quando ela invade a saúde, produz repressão dos sintomas, acúmulo silencioso dos problemas e narcotização da sociedade.
Hedonismo
A busca do prazer a todo custo — sem interrupções, sem tolerância para o que não seja agradável ou confortável — é um problema que vai muito além do simples “ninguém quer sofrer”. O hedonismo como filosofia de vida abusa de analgésicos, sedativos, estimulantes e toda espécie de substâncias. Leva à ignorância do sintoma, do sistema em que ele esta envolvido, dos aspectos que adoecem, da cura. Deixa o ser humano numa felicidade artificial produzida por substâncias — num consumo que beira ao desespero. E, o que é mais grave: o afasta da cura real. O prazer é uma parte bonita da experiência humana, mas quando se torna obsessão, nem mais prazer é. Passa a ser doença, e leva aos remédios. Aceitar que parte da vida não é prazer, não é conforto, não é feito só de um lado da moeda, paradoxalmente, ajuda a evitar doenças e crises.
Materialismo
A doença do século. Compreensível como consequência do cientificismo e do pensamento superficial, mas devastadora em suas consequências: leva à ignorância do holismo, do papel da mente e da consciência na vida humana, e leva à redução de tudo ao que é visível e mensurável. O materialismo leva ao reducionismo — tratar as doenças nos órgãos como problemas exclusivos dos órgãos. Para a ansiedade, dá-se um ansiolítico. Para o TDAH, um estimulante. Assim deve se resolver. É a incapacidade de ver além do imediato. Mesmo quando há causas fora do órgão, a obsessão com o ponto de manifestação impede qualquer esclarecimento das origens e do seu processo. Sem considerar emoções, pensamentos e as dimensões da consciência — e se agarrando apenas à neurologia cerebral como explicação última —, não há como criar um caminho real de cuidado, cura e felicidade. Se o problema é todo dopaminérgico e os remédios atuam, o problema deveria estar resolvido, mas não está. Não precisamos adotar nenhum espiritualismo ou medicina da nova era para curar a cegueira do materialismo, precisamos apenas ampliar o olhar e a consciência, ver o perímetro que engloba o sistema, seguir o caminho da gênese dos sintomas, encontra a física sutil, a mente e a consciência.
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É nesse terreno que se formam os dois extremos que conhecemos tão bem. De um lado, a medicalização irrefletida: o sofrimento visto apenas como desequilíbrio químico a ser corrigido, o remédio como solução mais rápida, o desconforto como inimigo a eliminar. Do outro, a resistência ideológica: a medicação como fraqueza, como fuga, como química que embota a experiência.

Nenhuma dessas posições faz bem a quem está sofrendo.

“A pergunta não é ‘devo ou não devo tomar remédio’. É uma pergunta mais delicada: o que meu sofrimento está me pedindo?

Medicamentos podem ser fundamentais quando o sofrimento tem uma base biológica significativa e praticamente intransponível: quando a depressão é tão intensa que paralisa, quando a ansiedade impede qualquer funcionamento, quando o sono não existe há semanas, quando o burnout chegou a um ponto de colapso real. Nesses casos, o medicamento não é fuga — é ponte. Seja um antidepressivo como o escitalopram, um estimulante como o Venvanse ou a Ritalina para o TDAH, um ansiolítico como o clonazepam — em contextos adequados, eles criam condições mínimas para que o trabalho mais profundo possa acontecer.

Mas o remédio, por si só, não transforma padrões. Não elabora traumas. Não responde às perguntas de sentido. Não ensina novas formas de se relacionar consigo mesmo e com o mundo. Isso é muito sério. Pode silenciar a dor — o que às vezes é necessário — mas dificilmente a resolve.

Às vezes, o sofrimento pede alívio urgente — e a medicação pode oferecer isso. Às vezes, ele pede espaço para ser escutado, compreendido, atravessado — e aí é o trabalho terapêutico que sustenta a jornada. Se a resposta sobre o que fazer precisa ser muito rápida, ela já revela algo sobre o desequilíbrio em que se está vivendo.

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Vale lembrar: a decisão sobre medicação é médica — do psiquiatra, não do psicólogo nem do psicoterapeuta. O que o processo terapêutico oferece é outra coisa: o espaço para entender o que está vivendo, como esse sofrimento surgiu, o que você precisa — e o que quer para sua vida.

Remédio e terapia não se excluem. Mas nem sempre os dois são necessários. E a única forma de saber é aprofundar a escuta, não apressar a resposta.

Se você está nessa dúvida, uma conversa pode ajudar a clarear. Às vezes, o primeiro passo é simplesmente ser escutado.

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