Seguindo nossa conversa sobre a importancia dos sonhos em psicoterapia, vamos até Fritz Perls, fundador da Gestalt Terapia, uma das abordagens clínica principais que usamos aqui. Para Perls, os sonhos ocupam um lugar absolutamente central no trabalho psicoterapêutico. Ele chegou a afirmar que o sonho é a via real para a integração da personalidade — não como metáfora, mas como experiência viva. Diferente de abordagens que tratam o sonho como algo a ser decifrado intelectualmente, Perls propôs algo radical: o sonho deve ser vivido.

Na Gestalt-terapia, o sonho não é visto como uma mensagem cifrada enviada por uma instância distante chamada “inconsciente”, mas como uma expressão direta do próprio organismo. Tudo o que aparece no sonho — pessoas, objetos, animais, cenários, sensações, cores, climas — é o próprio sonhador em ação. Não há símbolos a serem traduzidos; há partes da pessoa pedindo reconhecimento.

Perls dizia que cada elemento do sonho é uma parte alienada do self. Ou seja, aspectos da personalidade que, por algum motivo, foram rejeitados, ignorados ou não integrados pela consciência. O sonho surge, então, como uma tentativa criativa do organismo de restaurar sua totalidade. Sonhar é um ato de autorregulação (note aqui certa semelhança com a função principal atribuída por Jung, a do equilíbrio).

Por isso, na visão gestáltica, o trabalho com sonhos é profundamente experiencial. Em vez de perguntar “o que isso significa?”, Perls convidava o paciente a perguntar: “como isso é?” e “o que isso faz?”. Ao dramatizar o sonho, falar como os personagens, tornar-se os objetos, dar voz ao clima e às emoções, o paciente reintegra partes de si que estavam fragmentadas. O sonho deixa de ser um relato distante e se torna um encontro. Uma experiência, como de fato foi, ao sonhador, enquanto estava sonhando.

Outro ponto fundamental é que, para Perls, assim como para todos os grandes psicólogos da nossa época, nada no sonho é supérfluo. Não existe detalhe irrelevante. Se algo aparece de forma estranha, exagerada, incompleta ou absurda, isso não é um erro — é exatamente a forma que aquela parte do self encontrou para se manifestar. A ausência também fala. O silêncio também é figura. O sonho é preciso porque é orgânico.

E o que acontece quando os sonhos são ignorados na psicoterapia? Na perspectiva de Perls, perde-se uma das formas mais diretas de contato com conflitos não resolvidos. O indivíduo pode até compreender racionalmente sua história, mas continuará repetindo padrões, porque partes importantes de si permanecem desintegradas.

Perls via os sonhos como existências inacabadas, gestalts abertas que buscam fechamento. Trabalhar com sonhos é permitir que essas gestalts se completem. Quando isso acontece, há aumento de vitalidade, presença e responsabilidade pessoal.

Na Gestalt-terapia, portanto, o sonho não é algo a ser interpretado pelo terapeuta, mas experimentado pelo paciente, que se aproxima de suas partes, e, assim, de si mesmo. É um trabalho que devolve autoria, potência e integração.

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